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Sobre a Verdade e os Homens

É preciso ter estrutura mental e emocional resistente para sustentar a Verdade. Sem isso o perigo da queda é real e seria mais prudente e produtivo desfolhá-la aos poucos, retirando véu a véu, a medida que se vai aumentando a capacidade de absorção. Quanto mais nos aproximamos dela, da verdade, mais percebemos o quanto ela está presente em nós mesmos. Quando se chega a esse ponto, todos os defeitos que se tem são utilizados como forma de exercitar "o olhar da verdade". Cada defeito se transforma numa benção, pois se a busca é sincera o discípulo analisa cada um, sem culpa e sem julgamento. Sem apego e sem justificativa: sou assim porque isso e isso e isso.

Quando buscamos um motivo para encobrir nossos erros, é porque nossa vista já perdeu o foco. Precisamos voltar e começar tudo de novo. Em verdade o erro não existe, mas apenas a intenção de esconder e disfarçar, criar e alimentar uma imagem que não corresponde ao nosso eu real, como se o Mestre não soubesse quem somos. Infantilidade, pois ele sabe. Essa necessidade de justificativa é nosso ego trabalhando, não o teosófico, mas o psicológico. Teosoficamente falando, isso é "Ahankara", ou o princípio introjetado no homem para que ele tivesse consciência de si mesmo. Porém essa consciência de si mesmo, quanto mais densa ou embrutecida, não poderia deixar de se transformar em egoísmo. Essa transformação é natural e necessária à evolução de todos os seres. A verdade não está no conceito, pois este é objetivo. Ela escapa pela escotilha do subjetivo e só se mostrará através de Bhudi, ou ainda, quando formos capazes de comungar com uma consciência maior ou união das consciências dos Iniciados que conquistaram esses valores. Após a conexão com essas consciências, qualquer ato egoísta é decair.

Em realidade, a iniciação é trazer de dentro para fora a verdade, seja boa ou má ou como se queira. O que importa é que quando o processo iniciático é autêntico, não podemos mais esconder quem somos. É questão de tempo, pois mais dia ou menos dia a máscara cairá. Se vai cair, então que quando isso acontecer, sejamos corajosos, para enfrentar nossos fantasmas, em vez de desperdiçar energia, justificando ou escondendo, que possamos, antes de tudo, transformá-la em atributos superiores.

Iniciação é compromisso com a evolução: com a nossa e com a de nossos irmãos em humanidade. Se assim é, deveríamos nos preocupar com o que pensamos e falamos, pois se agimos errado, estamos dificultando o fluir da vida, para nós e para os que nos cercam. Se pensou e, em seguida verbalizou, está criado e a velocidade e intensidade com que isto se manifestará objetivamente será proporcional à força empregada. Quero dizer com isso que cada pensamento, palavra ou ato tem seu peso e, invariavelmente colheremos os frutos, quer sejam bons ou maus. Quero dizer com isso, que deveríamos tomar consciência do papel que representamos na vida, que deveríamos fazer um exercício constante de ampliação da consciência, no sentido de identificar as máscaras sociais como entidades à parte ou como algo que não somos nós. O homem não é o bombeiro, o professor, o médico ou, penetrando um pouco mais na estrutura psíquica do ser, ele não é esse autômato que simplesmente repete uma série de padrões pré-ajustados.

O discurso comum é o de que as formatações sociais são necessárias para evitar o caos, porém, não é o que verificamos ao andar por qualquer grande centro urbano no Brasil e no mundo. É exatamente o contrário.

O discurso utilitarista determina que tudo deva ter uma função e, assim sendo, o pensador e o artista não tem valor, pois nada de concreto produzem. Solapa o verdadeiro valor da mãe de todas as Ciências, a Filosofia. Pensar é transgredir. Pense comigo: as regras são rígidas e imutáveis na forma de leis e constituições, porém o pensamento é fluido e, portanto, dinâmico. Estabelece-se a polarização e temos os dois extremos na forma arquetipal do Rebelde, aquele transgride e do Trapaceiro (forma caótica do primeiro Arcano, O Mago), que modifica a lei. Ambos utilizando nada mais nada menos que a mente. O Rebelde derrubando as leis humanas com o poder sua Vontade, que serão transpostas no futuro e transformadas à semelhança das Leis Superiores que regem o Cosmo. O Trapaceiro modificando as já existentes em seu favor e forçando o ajuste dos padrões morais e éticos.

Fecha-se então um ciclo, onde novas regras sociais são instauradas, lentamente aproximando o homem da Vontade do Divino. Verifique através da chave histórica. A história se processa ciclicamente, ou seja, de tempos em tempos se repete de forma semelhante ou análoga, mas nunca da mesma forma. Na busca pela verdade, seremos ora rebeldes, ora trapaceiros, com o mundo e conosco. Para completar o ternário, temos o Mantenedor, aquele que se esforça para manter as coisas como estão. Astrologicamente, são Áries (cria, inicia), Leão (mantém) e Sagitário (transforma). Essas três forças movem o mundo terreno e é deste atrito, entre as forças, que surge a verdade como conceito, que mata a si mesmo. Não sobrevive em essência, pois que a mesma em seu estado puro não admite polarização. O que temos não é verdade, mas apenas um nome empregado pelos homens para justificar o que se faz ou o que se quer fazer.

Gabriel Guerra