Artigos

REFLEXÕES DO PROFESSOR MANOEL FERREIRA

CAPÍTULO I

“Não é possível fazer-se a descrição de coisa alguma que tenha caráter secreto, da mesma maneira por que são feitas as de caráter profano ou exotérico. Sim, porque o início da história do movimento cultural espiritualista em que estamos empenhados, e o qual a própria lei achou por bem lhe dar o nome de missão y, por abranger as duas Américas, inúmeras vezes temos dito que somente determinado número de Seres, aos quais daremos o nome de Guias da Humanidade, tomaram parte direta em semelhantes acontecimentos. Para o mundo profano, portanto, poder-se-ia dizer que os mesmos foram de ordem subjetiva”. Tais Palavras foram oferecidas por JHS em Luzeiro (números 13 e 14, publicados em Junho e Julho do ano de 1953), em seu artigo Misteriosa Viagem de um Adolescente ao Norte da Índia.

Na revista Dharana Dharana (números 17 e 18, publicados no ano de 1961), na qual realiza comentários e traduções à obra de René Guènon, O Rei do Mundo, JHS afirma: “De fato, quem quiser encontrar a verdade em nossos estudos, não deve fazê-lo através de um só... Acontece muitas vezes que a resposta mais transcendente se acha em outro. Resta arrancar o véu espesso de maya de diante dos olhos”.

Foi quando nos deu ensejo de considerar o seu artigo Minha mensagem ao mundo espiritualista (revista Dharana, número 78, publicado em Outubro e Dezembro de 1933), onde afirma, pelas palavras de Michel de Figanière: “Eu digo e sustento que não é possível entrar em relações diretas com as inteligências superiores e até mesmo com as almas desligadas dos entraves carnais, sem cair nas redes fatais da mentira e da ilusão...”, para, após, concluir com as suas próprias: “Poderíamos citar centenas de escritores de nomeada, que defendem as mesmas idéias por nós expendidas – sem falar nos que poderiam ter o título de espíritos superiores (encarnados) à frente da humanidade como seus guias ou condutores, por isso mesmo, acima de qualquer suspeita – pouco importa se incompreendidos pelos que preferem as coisas e ensinamentos de outro mundo – aliás, como costuma fazer consigo, quando buscam fora o que vive em seu imo, contrariando, portanto, a famosa sentença do templo délfico, ou seja, o gnose te ipsum”.

Perfeitamente ajustado com o pensamento de Kut-Humi, também pelo Mestre citado em Dharana (número 77, publicado em Julho e Setembro de 1933): “... O ego espiritual subirá de estrela em estrela, de mundo em mundo, encontrando em sua progressão circular, sua antiga condição de espírito planetário puro, portanto, elevando-se mais alto, ainda, atingirá seu ponto de partida e daí imegir-se-á no mistério. Nenhum adepto jamais penetrou além do véu da matéria cósmica primitiva. A mais perfeita visão superior é limitada ao universo da forma e da matéria”.

Encontramos no artigo intitulado Explicações necessárias, donde extraímos a frase que Ele cita, de Kut-Humi: “... assuntos de nossa obra, que exigiram que a publicação do último capítulo de A minha mensagem fosse substituído pelo artigo que tem por título O governo oculto da S.T.B”. Tal artigo, bem se pode dizer, é complemento do primeiro, principalmente, no que fomos forçados a abordar, pela última vez, ou seja: o grave erro de orientação em outra sociedade de cunho teosófico, cujas conseqüências foram funestíssimas para o nome inconfundível da Teosofia”.

Neste importantíssimo estudo – O governo oculto da S.T.B. – o Mestre deixa bem claro o que se deve entender por governo oculto, e, enfatiza, para que não fique dúvida, utilizando o artigo do Dr. Eduardo Afonso, A mais elevada raça humana, que transcreve e recomenda que se leia. Eis a peroração do Mestre: “E para que hoje não existam discordâncias em tudo o quanto se acha consubstanciado nas humildes páginas desta revista – para isso mesmo entrando em jogo o que o vulgo prefere chamar de acaso, e nós de Karma ou Lei que a tudo e a todos rege (por ser a de causa e efeito, etc...) – note-se o assunto principal do valioso estudo do eminente sucessor de Roso de Luna na presidência do Ateneu Teosófico de Madrid – o Dr. Eduardo Afonso – cujo artigo tem por título A mais elevada raça humana, onde o mesmo fala em reis e governantes divinos como Rishis, Manus, Prajapatis, além de outros mistérios raciais que, bem pensado, não deixam de estar ligados ao grande movimento oculto que se opera em prol da chamada, teosoficamete, sétima sub-raça ária”.

Vejamos então o que JHS denomina o assunto principal do valioso estudo do Dr. Eduardo Afonso, em A mais elevada raça humana: “... que enorme satisfação se experimenta quando nos aprofundamos em textos tão formosos e repletos de sabedoria, como o são os da obra de Blavatsky e as de seu digno e excelso discípulo Mário Roso de Luna. Nos deparamos com a idéia síntese, uma verdade luminosa, cujos esplendores nos guiam pelos dificultosos caminhos do conhecimento”.

E continua: “Uma dessas verdades é que, elevadas entidades construtoras do cosmo visível (elohim Hebreus, chimnang e tchan-qui Chineses, dingir e mullil Acádios, isis, osíris e toth Egípcios, ameshaspends Caldeus, sephirots Cabalísticos, dhyans-cohans Arcaicos, construtores das estâncias de dzyan, etc...) encarnaram um dia na terra em forma humana, fazendo-se então reis e governadores divinos conhecidos em literatura teosófica com o nome de rishis, manus e prajapatis. O fato é que tais seres superiores, condutores de povos, não se manifestam somente em formas humanas esporádicas ou isoladas, mas também, em conjuntos raciais ou povos que, por seu especial grau de desenvolvimento mental, merecem adquirir mônadas superiores para exemplo da humanidade; o que não é de se estranhar, já que no mundo da manifestação são dados todos os graus e possibilidades como instrumento do espírito (inclusive a encarnação coletiva de uma mônada superior, longe do que supõe a idéia um tanto dogmática, da encarnação pessoal). E um desses povos privilegiados, talvez o maior da história, é o povo americano dos nagas ou nahoas...”

O espírito de um Beethoven está de fato encarnado em toda a humanidade culta, que vibra com a música; do mesmo modo que o Cristo, em todos os que vivem a sua doutrina. Ambos, como outros mais, à guisa de Deuses efetivos.

Uma oportuna observação de JHS: “Não se deve confundir a obra com a instituição que hoje lhe serve de fiel guardiã na terra. A primeira é eterna, pois que já provém do início das coisas, pouco importando as mãos de quem a dirigiu, nos diversos ciclos em que é repartida a vida universal. Todos os grandes iluminados que a este mundo vieram, com determinada missão redentora para os homens, falaram em seu nome, pouco importa que os homens tanto de outrora como de hoje não compreendessem o verdadeiro sentido de suas palavras”.

Em Dharana, número 104, do ano de 1940, pela seção dedicada a São Lourenço, fala-nos dos iluminados: “Jeoshua e quantos iluminados vierem a este baixo ou inferior mundo, em missão especial, nada mais são do que projeções, vestes, tulkus (como se chama no Tibet), frações digamos assim, do redentor síntese, que tanto vale pela manifestação final do manu primordial, planetário ou espírito dirigente da ronda. O mesmo que se disséssemos, vários Cristos parciais (os anunciados pelos yo-kanaans de todos os ciclos raciais, etc...), para o Cristo universal. Donde as escrituras orientais lhe deram o nome de Maytrea, mas na verdade, Maitri, que não tem apenas o significado de compaixão, como lhe dá o grande sanscritista Burnouf , mas um outro de maior transcendência, isto é, decomposto em duas sílabas: mai ou maya, e tri ou três. Aquele, portanto, que é ao mesmo tempo uno e trino dentro dos três mundos”.

Esse tema é exaustivamente explicado pelo Mestre em seu artigo O rei do mundo, onde traduz e comenta René Guènon – Um pouco de iniciação, capítulo 1, revista Dharana número 123 do ano de 1945. Quanto ao termo Instrutor do mundo do final da valiosa mensagem (a que recebeu do Oriente a Sociedade Dharana: Salve Dharana! Rebento novo...), encontra-se nas escrituras ocultistas e teosóficas como dirigente espiritual de nosso globo ou planeta. Em outras palavras, trata-se do planetário da ronda. Nas tradições trans-himalaias possui vários nomes, dentre os quais Erdemi, Maytreia, Akdorge. Etc...

Ainda em referência ao citado artigo, temos:

“É, ao mesmo tempo, o chefe dos exércitos celestes, o mesmo Arcanjo Miguel da Igreja (do Grego Mikael, do Árabe Mikail, ou antes, Mirrail, segundo a sua pronúncia significando aquele que é como Deus ou semelhante a Deus. Mas, dizemos nós, aquele que o representa na Terra)...

O verdadeiro ou sintético salvador do mundo ( O Planetário da ronda como foi apontado em outros lugares, Maytrea, Akdorge etc...) não fez a sua total manifestação ou avatara, como se diz nos livros sagrados. Mesmo porque, a referida idade de ouro está muito longe ainda dos nossos dias.

Em resumo, tal ser é reconhecido sob vários termos, nas diversas línguas adotadas no mundo e escrituras sagradas encontradas, mas sempre embaixo do conceito uno-trino, como por exemplo: logos, fazedor ou verbo; filho do fogo e da água primordiais. Do mesmo modo que Dragão de sabedoria (Aghato-Daemon); Sutra (ou fio) da áurea luz; O resplandecente Augoeides; O manifestado pó si mesmo; O Maha-Chohan ou síntese (oitavo, portanto) dos outros sete Dhyanis Cósmicos; O ancião morador de pu-to, ou da ilha sagrada e imperecível dos budistas Tibetanos; Alma universal, só compreensível pela intuitiva e mística percepção de budhi ou da sabedoria dos ófitas, basilianos e gnósticos alexandrinos; Humana serpente sem braços, crucificada no tau ou cruz do universo, dos templários maçons e rozacruzes; Dupla astral dos cabalistas; Peter omnipotens aether dos gregos; Conubis; Hremes trimegisto, o Mercúrio celeste, o grande Maitreya-Budha, o primeiro dos nascidos e o último dos que hão de morrer, o futuro Bodhisattwa da sétima e última das raças humanas deste ciclo ou ronda; Prometeo, o proto-eu ou ego, o primeiro nascido, e que toma as formas da natureza.

Este Kwan-Shi-Yin dos chineses, o mesmo Avalokiteswara indu é, pois, O grande prometido das idades.

É preciso que o ser humano, também de tríplice forma (corpo, alma e espírito), se faça um com e como ele (uno-trino), para que, de fato, o mesmo apareça em integral equilibrante e andrógina manifestação (no ciclo, idade, etc.), em que tudo e todos serão dessa mesma natureza, inclusive o globo terrestre, como estamos fartos de dizer. Donde o termo Satya-Yuga, Idade de ouro, Eterna primavera (prova de haver uma só estação) que se dá a referida época ou ciclo”.

Para complementar o entendimento, como se necessário fosse, citamos do mesmo artigo, mesma revista Dharana, o trecho esclarecedor do capítulo intitulado Palavras necessárias:

“O Rei do mundo é o mesmo Planetário da ronda, o Manu primordial. É conhecido nas escrituras orientais através do termo Maitri ou Maitreya (Senhor de compaixão nos três mundos cabalísticos, pois que o quarto pertence ao próprio trono donde ele procede e emana) O termo Akdorge se dá ao Rei do mundo...

Quanto ao mistério que paira a respeito da sucessão dos diversos seres que, em determinados ciclos assumem a função de Rei do mundo (ou Coluna central do governo espiritual oculto) numa série numeral em que o mesmo espírito de verdade (o Planetário da ronda, Manu primordial, etc) se manifesta na terra, não podemos entrar em pormenores.

No caso vertente, não há como dar melhor interpretação aos termos: Vas honorabilis, Vas insignis devotionis...”

Vans honorabilis, Vans insignis devotionis, é o que nos diz o Mestre. Os Manasaputras! Sempre eles, sucedendo-se nas espirais infindáveis, a caminho do eterno! Binômio manifestativo: integração do Eterno no Supremos arquiteto. De vida-energia a vida-cosciência, do Um ao diverso, para volver ao Uno, dentro do glorioso corpo da divindade, donde cada molécula é um mundo e cada mundo uma molécula de outro mundo maior. Consoante ao dizer de Paulo, em Deus existimos e nos movemos, ou, conforme Agostinho, de Deus viemos, a Deus havemos de voltar. Nas palavras do Mestre, o Eterno caminha de globo em globo, de cadeia em cadeia, de civilização em civilização.

Todas as etapas – globo, cadeia, civilização – atendem ao construens et destruens de Vico, por ele tão citado, a construir a sístole e diástole do coração do mundo, que traduz a mesma idéia de evolução em espiral, isto é, partida de um ponto e regresso ao mesmo, porém um grau acima... A onda de vida em perene pulsação, força centrífuga da emanação e centrípeta da absorção; lei maior de renascimento ou transformismo universal; no universo nada se perde nada se cria tudo se transforma (Lavosier); sucessão infinita de universos finitos que explica a maneira de ser da Divindade; a própria eternidade. Na síntese de Castaño Ferreira: “Os universos são finitos, porém a contradição entre os limites impostos à evolução dos mundos e a substância ilimitada e eterna se resolve pela sucessão infinita de universos finitos”.

J. Claud de Saint Martin é citado por JHS na revista Dharana números 49 e 51, do ano de 1930:

“Tudo parte do Um ao diverso, para volver do diverso ao Uno. A força centrifuga da emanação a força centrípeta da absorção; a sístole e a diástole do coração do mundo; a expiração e a inspiração dos pulmões do mundo; o fluxo e o refluxo do oceano do universo; a analogia e a sintaxe da gramática divina. Primeiro a perfeição das palavras, para depois chegar ao próprio construtivo. A seguir, a perfeição vital de cada órgão, para alcançar depois a perfeição do organismo. A seguir, ainda, a perfeição de cada pedra, para alcançar depois a perfeição do edifício.

Assim, pois, a orientação de nosso plano construtor terá de se encaminhar em tal sentido: construir-nos para que, com nossas colunas construídas, se construam os templos. A perfeição do fragmento, como meio de ir a perfeição do conjunto.

Logo, saber que cada molécula é um mundo e cada mundo uma molécula de um mundo maior e que a nossa elevada moralidade construtora terá que construir na marcha do individual para o coletivo, do diverso ao uno; e como o diverso é o espírito materializado, assim como o Uno é a matéria espiritualizada, o caminho que havemos de percorrer é aquele que vá a Deus manifestado pulverizado em homens, até o homem perfeito sublimado em Deus”.

Ora, a manifestação da divindade, pelo caminho de descida até aos derradeiros planos da matéria, dá-se por dissociação do Uno, para a constituição de seres e formas. O caminho de volta, é válido deduzir, deve acontecer por um processo inverso, de união ou identificação dos seres já sublimados, e sintetização das formas.

Os homens que, sendo sábios e virtuosos, se integraram em Deus ou em seu Eu divino, alcançam os mundos espirituais ou interiores, aliviam-se cada vez mais das características de egoidade que os separa tão distintamente na superfície, o chamado mundo material. E, assim, por sintonia de dons ou tendências, vão constituindo grupos harmônicos que são na verdade grandiosos seres coletivos. A tais grupos é que as tradições têm denominado de anjos, deuses, potestades, linhas ou raios, atributos divinos, budas, e até, já em uma metafísica mais profunda, leis universais, para não dizer, explicando uma síntese suprema, lei que a tudo e a todos rege, com origem em pretéritos manvantaras dos quais o próprio Eterno é conseqüência, lei que ele mesmo é, regente de toda a dinâmica da evolução.

O Mestre cita, a exemplo, as linhas do pramantha: Serápis, Hilarião, Mória, Kut-humi, etc.

E, como a lei de seriação preside todos os planos do universo, também nestas grandezas existem graus de perfeição que se acentuam até o ponto máximo ou sol central, que é do grupo, o Ser representativo da função, tendência, dom ou atributo.

Desta maneira é que podemos entender o real significado de Akdorge, guerreiro ou cavaleiro das idades, Ser representativo de todos aqueles que se empenham na sublimação da animalidade e conquista da etapa final de evolução, a chamada dignidade humana.

Allamirah, como o ser representativo de todas aquelas cuja função é criar ou modelar as formas, a compor, no grande conjunto, a natureza ou Mãe divina.

Cafarnaum, como chefe dos Yokanaans, ou seja, aqueles que pos suas preciosas conquistas evolutivas anunciam possibilidades evolutivas maiores, desde os Avataras parciais até Matri, ou redentor síntese.

Exemplo atualíssimo dessa asserção foi o nascimento, no ano de 1900, dos Dhyanis jivas, como representação viva dos humanos esforços nas várias linhas ou raios do saber: alquimia: Antônio; medicina: Godofredo; filosofia: Francisco; literatura: Eduardo, etc.


Manoel Ferreira

09/05/2007