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Personalidade e Impermanência

Nascer, viver, morrer, tornar a nascer...

Vive o homem por sucessivas vidas - trata-se de um fato que já chega às raias de uma comprovação acadêmica. Além disso, bastaria uma reflexão mais profunda sobre as questões existenciais, livre de qualquer elo religioso, que nossa própria razão nos levaria a concluir sobre a realidade das reencarnações ou, para alguns, da Roda do Samsara.

Viver, adoecer e morrer faz parte da mecânica de vida na matéria, muito embora insistamos em vendar os olhos e não ver o que está diante deles.

O certo é que um dia, não sabemos quando nem onde, a doença e a morte nos visitarão, nos mostrando o quanto é impermanete a vida física, o quanto se torna ineficaz negar a transitoriedade de tal existência.

Muitos acham que pensar na morte é um ato mórbido ou pessimista, mas, na verdade, pensar e refletir profundamente que todos nós deixaremos um dia o corpo físico é o primeiro passo para entendermos a impermanência e caminharmos rumo à libertação das ilusões, que nos prendem ao Samsara.

Um fragmento dos escritos de Montaigne nos diz: “Para começar a tirar da morte seu grande trunfo sobre nós, adotemos o caminho contrário ao usual, vamos privar a morte de sua estranheza, vamos freqüentá-la...”.

Tememos a morte, tememos a dor e o sofrimento. Ao invés de encararmos o problema de frente, resolvemos “camuflá-lo” através dos artifícios da personalidade. Acreditamos, então, que a personalidade é a única realidade existente...

Sogyal Riponche comenta a origem de nosso temor em relação à morte de uma maneira muito lúcida. Diz ele:“Talvez a razão mais profunda de termos medo da morte é que não sabemos quem somos.”

Orgulhamo-nos de nossos nomes, trabalhos, filhos, carros, casas... Todas essas coisas, impermanentes, transitórias, são importantes e devem ocupar seu espaço de forma equilibrada em nossas vidas. O fato é que geralmente vivemos para que tudo isso, e apenas isso, exista e seja valorizado e, desta maneira, abre-se um imenso vazio, um grande abismo que nos separa do real e verdadeiro.

Até que ponto não reconhecer e enfrentar o medo da realidade nos traz benefícios? Concordamos com a visão de Chogyam Trugpa, que diz: “Reconhecer o medo não é motivo para depressão ou desânimo. Porque temos medo, temos também, potencialmente, o direito de experimentar o destemor. O verdadeiro destemor não consiste em diminuir o medo, mas em ultrapassá-lo.”

O medo do real acaba por tecer um pano, atrás do qual se desenvolve a verdadeira vida. Se quisermos prosseguir, é preciso superá-lo, é preciso ultrapassá-lo.

Por medo de enfrentar o próprio medo, as próprias mazelas, os monstros alimentados pelo irreal, estamos a todo instante criando desculpas para não nos dispormos a uma atitude de superação.
Lama Surya Das escreve, com muita propriedade: “À medida que vamos passando pela vida, muito de nós nos envolvemos de tal maneira com os papéis que desempenhamos, que deixamos de ver ou perceber a nossa conexão com nossa autêntica natureza. Esquecemos de quem somos e nos tornamos quem não somos.”. Sem dúvida que a personalidade é um importante instrumento na senda evolutiva. Mergulhados na inconsciência foram as personalidades que possuímos ao longo de sucessivas vidas, de encarnações em encarnações, as responsáveis por nossa individualização.

Em outras palavras, podemos considerar que, em um primeiro estágio, a personalidade nos individualizou e nos mostrou nossas potencialidades, nos retirando de uma massa inconsciente e nos tornando seres cada vez mais conscientes.

Inauguremos uma nova etapa de evolução! Não há como nos libertarmos das ilusões trazidas pela Roda de Nascimentos e Mortes e avançarmos na evolução espiritual se não entendermos que, para além da personalidade, passageira e impermanete, há uma realidade maior, duradoura e real, que a tudo permeia e envolve, que é plenamente consciente e independente de fenômenos, presente em todo o cosmo e também em nosso interior.

Para o “retorno ao Pai” é preciso tornarmo-nos um com ele; tornarmo-nos um com ele é tornarmo-nos plenamente conscientes, o que só é possível se rasgarmos o véu das ilusões promovidas por nossas personalidades, percebermos a impermanência das coisas e buscarmos trilhar um caminho que nos conduza à permanência, ao real e verdadeiro.

Há que se colocar a impermanência em seu devido lugar, enfrentar e transpor o medo da morte, não só de uma morte física, mas também da morte de nossos desejos egoístas.

Despertar para essa realidade é despertar para a verdadeira espiritualidade, para o verdadeiro autoconhecimento, para a tão sonhada imortalidade.

O melhor de tudo é que não precisamos esperar por um despertar doloroso. É possível alcançarmos uma felicidade verdadeira e perene, aqui e agora, começando por refletir sobre o quanto estamos empregando nosso tempo e energia na obtenção de elementos que alimentem nossas personalidades e o quanto temos acreditado que ela é a única realidade para a qual vivemos.

Que todos os seres encontrem a felicidade e suas causas!

Leonardo A. Maia