Discernimento – o primeiro passo na senda iniciática
De acordo com Krishnamurti, um sábio Mestre da Vida, em seu livro “Aos pés do Mestre”, quatro são as qualidades necessárias para a admissão à Senda Iniciática: discernimento, ausência de desejos (desapego, abnegação), boa conduta e amor. A primeira das qualidades pode parecer de fácil realização, pois se alguém se propõe a trilhar o caminho espiritual, há de fazer escolhas condizentes com tal caminho.
Mas uma silenciosa reflexão irá certamente revelar que não basta fazer a escolha pelo caminho espiritual. É necessário trilhá-lo. Uma vez trilhando o caminho escolhido, é necessário ainda perseverar nele, evitando os desvios e superando as quedas.
Inicialmente o buscador entra na Senda Iniciática por perceber que não há, fora da Vida Verdadeira, nada digno de aquisição. Em seu âmago ele sabe que a sua insaciável sede não pode ser satisfeita pelas coisas do mundo, que são impermanentes por natureza.
O discernimento pode ser definido como a distinção entre o irreal e o real, o errado e o certo, o efêmero e o eterno. Para conquistar a capacidade de discernir entre o certo e o errado, o buscador deve adquirir conhecimento – o conhecimento do plano da Divindade em relação aos homens. Tal plano é a Evolução, ou seja, a transformação de vida-energia em vida-consciência.
Segundo Krishnamurti, “aqueles que estão ao lado de Deus, sabem por que aí se acham, sabem o que têm a fazer e tentam cumpri-lo; todos os demais não sabem ainda o que tem a fazer, e por isso, freqüentemente agem de modo insensato, imaginando caminhos para si próprios, os quais lhes parecem agradáveis, não compreendendo que todos são um e que, portanto, só aquilo que o Uno quer, pode, realmente, ser agradável a todos. Seguem o irreal ao invés do Real. E, enquanto não aprendem a distinguir entre ambos, não se colocam ao lado de Deus, - e eis porque o discernimento é o primeiro passo a dar”.
São muitas e sutis as variações entre o certo e o errado, entre o importante e o não importante, entre o útil e o inútil.
Lao Tse em seu livro Tao Te King resumiu em um aforismo a solução para a desenfreada busca pelas coisas efêmeras do mundo: “Quem se contenta com o necessário, tem sempre o suficiente”. Quando o discípulo está trilhando a Senda e vivendo a Vida Verdadeira, o necessário sempre lhe é provido pela Divindade.
A Vida Oculta não admite vacilações entre o bem e o mal. A todo custo o buscador deve fazer o bem, nunca o mal. Deve ele estudar profundamente as Leis Ocultas da Natureza e organizar a sua vida de acordo com elas, utilizando a razão e o bom senso.
Na medida em que o discípulo for avançando na Senda, sendo diligente nos seus estudos e vivenciando a Lei, mais sábio se tornará. E na medida do seu merecimento, a Divindade agirá por seu intermédio. Nesta fase, cumpre-se o ditado oculto que diz: “Quando o discípulo está pronto, o Mestre aparece”.
Finalmente, aconselha Krishnamurti que o buscador deve utilizar o discernimento para exercer a verdadeira Fraternidade: “Podes ajudar teu irmão pelo que tens de comum com ele – a Vida Divina. Aprende a despertar nele essa Vida, aprende a invocá-la nele; assim, o salvarás do mal”.
Marcelo Bonfim