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A Metafísica do Corpo

Na maior parte das Escolas Iniciáticas, o homem é considerado um Ser dual, binário, sendo constituído pelo ser Real ou Espírito Puro e pelo seu veículo denso ou “Corpo”.

Partindo deste ponto de vista, fica clara a condição divina do Homem e, também podemos concluir, que não é necessário procurar a Divindade fora de nós mesmos, já que a possuímos no âmago de nosso ser.

Por conseguinte, tem o homem em si todas as virtudes e poderes divinos que jazem latentes no fundo de sua individualidade.

Na senda espiritual o discípulo irá, conseqüentemente, despertando e atualizando tais poderes e virtudes e, para tanto, é indispensável conhecer, perfeitamente, a organização do ser humano, inclusive seu invólucro material.

A máxima iniciática: “Conhece-te a ti mesmo”, enuncia que o homem deve reconhecer-se como um Deus, olhando para seu interior, como também conhecer o frasco que carrega suas essências. É justamente neste frasco, que as essências físicas (hormônios) e divinas (o Fogo-Kundalini e Prâna-Fohat) irão circular nos nadis, harmonicamente, produzindo um veículo perfeito para, cada vez mais, sintonizarmos ou expressarmos o Divino em nós.

O espírito divino manifesta-se na graciosidade natural do corpo e na amabilidade das atitudes da pessoa para com tudo e com todos. Esta graciosidade é num estado de inteireza, de conexão com a vida e com o Divino. Em suma, um estado de saúde.

Este estado de saúde está intimamente relacionado com os sentidos sensoriais do homem que são como pontes que nos ligam à realidade material. Por meio deles, absorvemos do mundo imagens, sons, sabores que irão impressionar nossa psique de forma positiva (agradável) ou negativa (traumática). Eles, os sentidos, não somente podem nos ligar ao meio ambiente como também às dimensões superiores ainda não percebidas por nós.

Por isso, os mestres ensinam que o discípulo deve ter vigilância dos sentidos pois eles podem turvar-lhe a compreensão do Real. Entre a percepção da realidade e o Real propriamente dito, encontra-se a mente que irá, segundo os conceitos e preconceitos de cada um, determinar se a sensação é boa ou má. Através de nossos olhos podemos ver as coisas do mundo mas também contemplar o Divino, os mundos internos; nossos ouvidos podem perceber tanto os sons comuns como também a música das esferas, a Voz do Silêncio; mediante nossa respiração podemos tanto experimentar os odores da terra como também o perfume das essências espirituais que circulam por todo o Cosmo. Nosso sentido gustativo permite-nos sentir os sabores como também apreciarmos a docilidade do néctar dos Deuses ou o maravilhoso soma, que é elaborado nas partes mais sagradas do corpo e que, segundo os mestres, transborda da boca dos seres espiritualizados através do doce salivar. Finalmente o tato que nos põe em contato original com o Fogo Criador ou o próprio Deus, feito imagem e semelhança no corpo de um homem.

Só no corpo físico é que encontramos o laboratório mais perfeito para trabalharmos a nossa matéria prima, ou seja, “transformarmos nossa vida energia em vida consciente” (JHS) ou na prima matéria dos filósofos.

Este trabalho de transformação ou a chamada Iniciação, envolve práticas objetivas no corpo físico através de yogas Ativas e Passivas. As yogas ativas ou asanas, são posturas, manobras com o corpo físico que têm influências na elevação espiritual do ser. As yogas passivas são direcionadas para o trabalho de concentração mental do homem. Estimulando sua imaginação ou, mais especificamente, o poder de Krya-Shakti, que seria o poder de criar com a mente.

Estas yogas conjugadas com a respiração consciente (pranayama) irão promover no discípulo um limpeza nos canais de corrente etérica (nadis). Corrente etérica é o fluxo de energia cósmica, prânica, que circula na atmosfera como pequenas partículas vivas de energia. Desta forma, os chackras, centros energéticos espalhados pelo duplo etérico ou, a parte mais sutil do corpo denso, composto por partículas energéticas, passam a ser vitalizados pelo prâna. Uma vez mobilizados, os chackras irão dinamizar suas conexões físicas no corpo, que são as glândulas de secreção interna.

As nobres essências hormonais que banham a nossa corrente sangüínea, vão desempenhar importantíssimas funções como regular, estimular e ativar o metabolismo e as funções orgânicas. Infelizmente, com o bombardeamento constante ao qual o corpo físico está submetido, resultado da péssima alimentação, da má respiração, desequilíbrios emocionais e psíquicos, as glândulas que são responsáveis pelos hormônios, reagem com hiper ou hipotrofias que vão levar a total desarmonia do organismo.

O chackras, quando em pleno funcionamento, despertam no homem virtudes e poderes adormecidos. Este despertar dos chackras está intimamente ligado com a ativação da força Kundalini que reside no chackra rais, localizado no cóccxi, na região sacra, base da coluna vertebral. Kundalini é a força cósmica que move todo o universo e podemos senti-la na temperatura do corpo e no potencial sexual, já que ela é a própria energia criadora.

Os chackras estão situados na periferia do duplo etérico, ligando-se por um pedúnculo ou caule, também etérico, ao canal principal eletromagnético do corpo humano, que passa pelo interior da medula espinhal. O Prâna recebido pelos chackras, circula no duplo etérico através de condutos ou canais eletromagnéticos denominados nadis. Desses, Ida, Píngala e Sushumna são os principais. O Sushumna corre no interior da espinha, indo desde o cóccix até o alto da cabeça. Píngala nasce da narina direita, enquanto Ida da esquerda, descendo ambas, sinuosamente, até o chakra raiz.

Interessante de se verificar é que Sushumna, Ida e Píngala formam com seu caprichoso percurso, uma figura exatamente igual ao caduceu de Mercúrio, símbolo iniciático da mais alta significação.

Todos estes elementos, que ainda não são tratados pela medicina convencional, são amplamente conhecidos pelos ocultistas, há milênios. O total desconhecimento deles e de suas funções acarretam para a humanidade sérios problemas porque, através da harmonização destas estruturas, é que são dados os primeiros passos na senda iniciática.

Chackra significa em Sânscrito, roda. Geralmente, nos adultos desenvolvidos espiritualmente, a superfície do chackra é dividida em setores, apresentando-se cada um destes, com uma cor particular. Por este motivo chamam-no no Oriente de “Loto”, pois apresenta-se como uma flor de pétalas coloridas. Desempenham funções de extrema importância em nossa vida. Estão sempre situados à frente de um plexo nervoso, para permitir a passagem e a transformação da energia cósmica que absorvem em energia vital ou nervosa.

Nos homens pouco desenvolvidos os chackras mal são percebidos pelo vidente, fulgurando, todavia como pequenos sóis nas criaturas evoluídas espiritualmente.

Todos os corpos do homem possuem chackras, com exceção do corpo físico denso e da tríade superior. Os chackras etéricos estão situados nas mesmas regiões do corpo que os astrais. Entre cada chackra etérico e o seu correspondente astral, existe finíssima contextura que barra a livre passagem das vibrações astrais. Essa tela funciona como um verdadeiro filtro, impedindo que as vibrações grosseiras, provenientes do plano kamásico (das emoções), passem ao sistema nervoso e à consciência física. A natureza desta tela vai se aperfeiçoando à proporção que o indivíduo envolve espiritualmente.

Essa tela denomina-se “Rede Búdhica” e é uma das portas que a natureza conserva fechada. Abri-la sem que o indivíduo tenha permissão kármica, constitui erro gravíssimo. Certas práticas espíritas denominadas “Sessões de preparação de médiuns” costumam romper a Rede Búdhica, ficando o indivíduo à inteira disposição das entidades astrais, nem sempre desejáveis, como ainda, ao sabor das influências daquele mundo.

Também o alcoolismo e o tabagismo inveterados, trazem como conseqüência o entorpecimento da tela búdhica, a qual não consegue mais filtrar as vibrações astrais. Os entorpecentes de toda a natureza têm efeito semelhante, deixando os viciados em situação de contato imediato com a realidade astral. Com o desenvolvimento do vício, tanto o etilista como o toxicômano, terminam com terríveis alucinações, que nada mais são do que o trato e percepção direta com os seres mais baixos do mundo de Kama (desejos).

Os excessos de toda a natureza, principalmente, os sexuais, podem também abalar e romper a rede búdhica, como ainda as emoções violentas e desordenadas. A esse fato, se devem os estados de loucura súbita a que são submetidos alguns homens.

Certos cânticos, posturas, defumações, mantras e recitativos, exercem notável influência sobre a tela búdhica. Conforme as forças que tais práticas põem em movimento, sua influência é benéfica ou nefasta sobre a rede de defesa dos chackras.

No alto da cabeça, com o disco voltado para cima, encontra-se a sahasrâra, também chamado o “Loto das Mil Pétalas”. Esse chackra tem 960 pétalas de cor púrpura. No centro traz uma miniatura do Anahâta, representada por um botão de 12 pétalas. Esse centro, quando desenvolvido, absorve as qualidades de todos os outros e resume todos os poderes conferidos pelo desenvolvimento dos demais chackras.

Kundalini, quando desperta, sobe pelo Sushumna iluminando todos os chackras até o Sahashâra e depois, se aloja na câmara do coração, no chackra cardíaco. Daí o simbolismo do Cristo com o peito chagado, em outras palavras, kundalini vibrando no coração do homem, eis o Adepto formado!

Há que se observar, que o corpo físico e o duplo etérico são apenas partes do conjunto maior, ou seja, do homem integral. Seria uma noção simplista analisá-lo apenas sob a ótica física pois, segundo a Teosofia, todo o reino físico já está realizado, cabendo ao homem despertar para suas realidades internas superiores.

O verdadeiro trabalho, a Yoga Real, não consiste em técnicas para modelar esteticamente o corpo ou em formas mecânicas para desenvolver os chackras. A transformação e o progresso destas estruturas estão relacionadas, verdadeiramente, ao esforço interno do discípulo em movimentar a energia criadora dentro do seu santuário, do divino laboratório que a natureza depositou em suas mãos.

Pensamento:

“Não implores aos deuses impotentes pela tua iluminação. O único Deus existente na face da terra és tu. Tu criaste a tua prisão e só tu tens a chave para abri-la”. (Budha)

 

Francisco Paulo da Silva

Referência Bibliográfica:
SOUZA, Henrique José de. O Verdadeiro Caminho da Iniciação.
Minas Gráfica Editora, 1966.